No meio do caminho tinha um caderno

O que você faria se topasse com um sketchbook, ou um caderno de rascunhos pessoais? Você tentaria devolver ao dono, claro. Mas se o autor não deixasse qualquer número para contato? Então você o levaria para casa e, como quem não quer nada, folhearia...
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Porém, dado o primeiro passo na superfície amarelada de suas folhas, não mais será capaz de deixá-lo. Logo sentirá o gosto irresistível de descobrir o que talvez não lhe fosse permitido, ao começar a ler suas crônicas e poemas; criações pessoais de um desconhecido (e descuidado) escritor, que em mais de 180 páginas dedicou-se a refletir sobre o amor e a juventude.
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Um atrás do outro, os textos cativam-no. As ilustrações e colagens são uma doce brincadeira para os olhos e a alma. Virada a última folha, você terá redescoberto o jovem que sempre existiu dentro do peito, mas que andava sumido. E terá tido com ele uma tarde de prosas e lembranças.
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É impossível não se reconhecer nas páginas do livro abandonado,
e enfim desconfiará de que o autor não o esqueceu por aí, mas o deixou intencionalmente no caminho de alguns, gente que talvez deseje reencontrar-se com sua linda juventude.
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Abaixo, um pouco do que tratam as crônicas, contos e poemas
de PÁGINAS DE UM LIVRO BOM. Não hesite em explorá-los.




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Jorge está preso num engarrafamento quando uma antiga namorada o chama pela janela do veículo ao lado. Papo vai e vem, reminiscências... Então ele não mais acelera para chegar em casa, mas para emparelhar as janelas. Naquele carro estão seus 20 anos, a faculdade, os sonhos idos. Está também o marido dela, mas quem quer saber? Por essa Jorge não esperava: uma noite abafada lhe trouxe antigos pertences. Quantos outros ela não esconde por aí?
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Gotas de chuva são grãos de feijão que caem sobre as telhas em viva percussão. Mas vá dizer ao cego que não, que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa e que o cinza nunca será anil, quando ele encasqueta: “ali, a bandeira do Brasil!” Ou cale-se e entenda. Que felizes são os homens de imaginação, a quem não sufocam as amarras da visão.

Aconteceu esta semana: cinco vizinhos ficaram presos no elevador social. Desce? Sim: a razão, a níveis ínfimos. Sobe? Também: a temperatura, a descompostura, o apego aos santos e à fé! Oramos a Deus, todas as noites, para nos livrar das grandes tragédias, enquanto vamos sobrevivendo às pequenas, dia após dia. Mas deixe estar que os cinco ainda vão rir do incidente. Pelo menos até acontecer de novo.
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As baladas da vida colocam rapazes e moças frente a frente, promovendo encontros que podem durar uma noite, ou mil e uma. Ao iniciante no exercício do approach, três lições: o jogo nunca está perdido, mentir faz parte dele, mas seja sincero se quiser vencê-lo.
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O erotismo, onde está? No ato explícito, à luz do dia, em pleno escritório. Na intimidade de uma varanda silenciosa, dentro da madrugada. Está no pico de adrenalina provocado pelo risco do flagrante. Está na fronteira do sono, em que desejos desconhecidos se manifestam durante o cochilo da razão vigilante. Está aí, basta ver.
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É hoje à noite: baile em castelo de pedra para damas e cavalheiros de um antigo vice-reino tropical. A fidalguia chega em seus cavalos de potência e confraterniza-se até romper a aurora, ao som do pancadão. Ops... Assim como as vestes, as palavras são embalagens, formas para conteúdos. Em algum momento, porém, elas se rasgam, e a carruagem se revela abóbora.
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A chapa esquenta no céu a cada final de ano: é santo brigando com santo para ver quem fica em primeiro lugar nos vestibulares Rio afora. O tradicional campeão, o Colégio São Bento, não larga o osso, e aposto que não o fará tão cedo. Mas se ele tem as melhores cabeças, nós, agostinianos e inacianos, temos os melhores cabelos. Digo, elas têm, e deles somos devotos.
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João Henrique foi conhecer a Espanha num certo verão. Tinha tudo em seu roteiro, de Madri a Toledo. Porém, o inesperado tomou sua mão, chamava-se Beatriz, chica muy hermosa que lhe ensinou a lição: pequenas coisas são capazes de causar verdadeiro enlevo, e nos marcam para sempre, ainda que durem um piscar – ou o tempo que leva uma porta para girar.
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João e Juliana sentaram-se frente a frente naquela tarde e cerraram os lábios: quem risse primeiro, perderia. Jogar o siso pode ser um simples passatempo infantil, mas também a brecha de que o amor precisa para se manifestar, dedilhando o coração destes pequenos desavisados, provocando-lhes cosquinhas insuportáveis até os lábios cederem à gargalhada. Daí em diante, nada será como antes.
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A música de Claudio Zoli entra pela janela do quarto e o encontra, indefeso. Você interrompe a leitura e deixa a melodia raptar seu pensamento, lembrando a vez em que ela lhe confessou: “Sempre escutei ‘de biquíni’, mas é ‘B. B. King’!”. Ao que respondeu: “Eu também”, como se aquilo fosse um sinal. Espana o passado, volta ao livro. Os versos atrevidos, porém, continuam a lhe cercar. E os ouvidos lhe pregam mais uma peça: não importa o que diga a canção que vem de lá, dentro de você tudo se traduz em “por onde ela andará?”
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O escritor é, acima de tudo, um voyeur. Da janela do sexto andar, ele observa a noite carioca e seus personagens múltiplos (oportunos!), cruzando ruas e calçadas sob o bumbar da lua cheia, como passistas do cotidiano, de um Carnaval improvisado e mágico. Ele ouve samba onde todos ouvem o caos. E se inspira. Ideias vêm e vão como as ondas na praia. Evoluam, evoluam!, ele roga. Porque a fantasia brota da realidade, porque a realidade precisa da fantasia.
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Assim como o canto é o extraordinário da fala e a juventude é o extraordinário da vida, a alegria é o extraordinário da alma. Se não fosse sentimento, mas gente, ela seria uma jovem mulher a cantar dia e noite, noite e dia, reunindo em si o excepcional de todas as coisas.
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O tempo amadurece o coração mas não o imuniza contra a nostalgia. Amores passados não são melhores do que os presentes, mas retêm consigo pedaços da sua juventude que, estes sim, lhe fazem falta.
Uma carta para o poeta, poetinha camarada, escrita por um punho adolescente e aspirante, que nestes dias se reveza entre o ofício recreativo da poesia e a lição escolar de História e Economia. Agradeço por tudo o que Vinicius de Moraes deixou e que me inspira. E lançando o olhar de um século adiante para anos nem tão distantes, a uma década chamada perdida, dou à alcunha outra explicação, se me permitem, os cientistas, a intromissão.
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O homem que ama constrói um castelo para a amada sem antes mesmo perguntar se é nele que ela quer morar. E quanto mais alto lhe vão os muros, maior é o vazio que ele há de guardar quando seus planos ela frustrar. Então o entregará ao tempo para que este o destrua. Mas o tempo tem das suas e prefere esperar... Vai que um dia ela volta, de mala e cuia, e pergunta se pode entrar.
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Tudo o que ele queria era sua doce e verdadeira amizade, feita de nada senão da companhia irrestrita nas tardes ociosas. Dela, bastava-lhe a presença. Quem inventou o tal relacionamento, este palavrão, não entendeu o principal: que não precisamos ser 2 se podemos ser apenas 1 + 1.
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Em agosto de 2005, o furacão Katrina avançou sobre a costa americana, matou mais de mil pessoas, abalou a imagem de um presidente e calou uma cidade festiva e musical, famosa por seu Mardi Gras, submersa num mar de gris. Um poema em memória.
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Para que superpoderes se me sinto invencível toda vez que me sorri? Estou pronto para tudo, até para a morte. E mesmo que morra, morrerei feliz, levando comigo, para sempre, aquele frame, o instante em que a mente pausou o filme da vida e a imagem colou na retina. Lá estão seus lábios, concavando meu túmulo, convidando-me a deitar o corpo e os sonhos, onde terei paz daqui à eternidade. Neles habita a moça serenidade, aquela que vivo para alcançar. Por isso, não os use para dizer palavra, mas desenhe-as todas num único gesto cor-de-rosa.
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Há aquela que resplandece sem mesmo saber que o faz, por ser tão natural o brilho que traz. Não há, do outro lado, aquele que não o note e o deseje só para si, por inteiro. Neste caso, porém, convém a solução do vidraceiro: sabe bem que da primavera não deve privar ninguém, leva sua parte dentro dum espelho que se volta para o jardim e deixa ela soprar suas cores em rostos alheios, numa alegria sem fim.
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O mundo dá voltas, ouvimos dizer. Não por causa da tal gravitação, mas porque se entedia da mesma posição. E no seu girar caducam as mais firmes convicções, pois com ele giramos nós e nossas impressões. Estupidez é fincar pé quando está claro que tudo muda, exceto as estações.
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Houve uma vez uma turma de artistas ousados que trouxe para cá estranhas ideias estrangeiras. Ora bolas, que ninguém mais dirá ouvir estrelas, só o som dissonante da liberdade que rompe a norma e hasteia uma nova Bandeira.
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Mais feliz é o aniversariante que não espera os “parabéns” para se sentir parabenizado, pois bem sabe ele que o que não é verbal também fala. Se quiser entendê-lo, apure os ouvidos do coração.
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Numa biblioteca, ele corre os olhos sobre as lombadas que jazem na prateleira infinita. Do outro lado, ela faz o mesmo. Neste labirinto murado por romances de outrora, há frestas, pelas quais olhares se desencontram a todo instante. E para o bem da literatura, o contrário também acontece.
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Quando a primavera apresentou Eduarda a Guilherme, o jovem pintor descobriu que nunca mais lhe faltaria inspiração. E o namoro, que não tardou, teria durado a eternidade, não fosse aquele terrível instante em que o artista sucumbiu ao mal que o torturava calado, e contra o qual ele tanto lutara, fazendo do pincel, espada. O episódio mudou os rumos da história e abalou a relação entre Eduarda e sua família. Acontece que quando os homens erram no juízo, o tempo, curativo dos curativos, dá a eles um jeito de remendar. Nossa heroína, anos depois, terá a chance.
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Para entender o machismo é preciso voltar aos primórdios da humanidade e ir ter com Adão, Eva e uma colmeia em polvorosa – porque não só de cobras era feita a fauna do Paraíso. Certa manhã, cansados de se submeterem aos desmandos da abelha rainha e seu exército de operárias, os zangões do Éden decidiram tocar o rebu, dando início à primeira revolução sexual de que não se tem registro. À hora errada e no lugar errado, sobrou para o primogênito, coitado, a ferroada original.